O lixo que carregamos para cima e para baixo





Quando não sabemos onde jogar o lixo que produzimos em nossa casa, ficamos por um bom tempo com ele armazenado. Se formos proativos, buscaremos saber logo onde poderemos depositá-lo, mas se afirmarmos que não temos tempo, acabaremos ficando com ele até que cheire mal e nos incomode.

Essa visão não é muito diferente daquilo que produzimos e armazenamos dentro de nós.

Quantas vezes, quando sentimos algo, seja bom ou não tão bom, escondemos embaixo das nossas desculpas de ocupados e não nos detemos em descobrir onde e como melhor descartamos tais sentimentos? Quantas vezes, levamos esse lixo para cima e para baixo sem nos atrevermos a questionarmo-nos sobre o que, onde e como achamos que é o melhor jeito de descartá-lo[1]?!

Se vocês observaram acima, eu disse para descartarmos bons ou não tão bons sentimentos... mas, então, o que isso significa? Não seriam somente os ruins que deveríamos jogá-los fora?

Vamos explicar. Qualquer sentimento que portarmos nos trará uma consequência em nosso mundo íntimo e se não compreendermos o que cada um representa efetivamente para nós, poderemos nos prejudicar ao armazená-los em nossos corações.

Vou contar-lhes uma história que li nas redes sociais, da qual o autor eu desconheço:

Um professor pediu aos alunos que levassem uma sacola com batatas para a sala de aula. Disse-lhes que separassem uma batata para cada pessoa que os magoara ou de alguma forma os fizera sofrer. Depois disso que escrevessem o nome de cada pessoa em cada batata e as colocassem dentro da sacola.
Eles começaram a pensar, e foram lembrando e escrevendo uma a uma as pessoas que os tinham magoado... Algumas sacolas ficaram muito pesadas!A tarefa seguinte consistia em, durante uma semana, carregar consigo a sacola com as batatas para onde quer que fossem. Com o tempo as batatas foram se estragando e era um incômodo carregar a sacola o tempo todo e ainda sentir seu mau cheiro. Além disso, a preocupação em não a esquecer em algum lugar fazia com que deixassem de prestar atenção em outras coisas que eram importantes para eles.
E foi assim que os alunos entenderam a lição de que carregar mágoas é tão ruim quanto carregar batatas podres.
Quando damos importância aos problemas não resolvidos ou às promessas não cumpridas, nossos pensamentos enchem-se de mágoa, aumentando o stress e roubando nossa alegria.
Perdoar e deixar estes sentimentos irem embora é a única forma de trazer de volta a paz e a calma.
Jogue fora as suas "batatas"!

Bem, vocês poderiam pensar, mas esse exemplo só fala das coisas ruins que carregamos!!

Sim, é verdade, mas agora sigam comigo em minha reflexão: se houve algum sentimento entre essas pessoas (mágoas, raivas...), ele foi construído, na maioria das vezes, depois de uma construção boa, um laço emocional entre elas. Então, quando pensamos que surgiram sentimentos negativos que nos atolam ao peso que eles produzem, antes houve a construção de algo bom, palpável, real.

Então, usando do exemplo acima exposto, as batatas que carregavam os nomes de quem nos magoou e nos fez “mal”, antes, serviriam para nos alimentar, nos dar prazer, se as tivéssemos preparado ao nosso gosto.

Quando nominamos as “batatas”, compreendemos que elas já faziam parte de nossa vida, elas já eram nossas conhecidas e já nos influenciavam com suas ações e pensamentos. Senão, não nos incomodaríamos com elas.

Mas, vocês poderiam pensar que existem muitas pessoas que não conhecemos pessoalmente, e, mesmo assim, gostamos ou não delas. Sim, mas não podemos esquecer que, de alguma forma, para que produzamos o “lixo”, tendo-as (essas pessoas) como partícipes nesta construção, as ações delas já estão influenciando diretamente na nossa vida, por isso, reagimos, positiva ou negativamente.

Por exemplo, podemos citar as mais comuns:

  • (1) pessoas públicas, como políticos e artistas, por suas ações e ideias, podem nos influenciar, ou a quem amamos, para um caminho tortuoso; a mergulhar em vícios ou valores deturpados; somente com o uso do poder que detém, trazer mudanças significativas em toda a nossa estrutura familiar;
  • (2) criminosos, seja qual for o delito que cometam, nos levam a viver no medo e nos aprisionar em nossos próprios lares; a nos sentirmos agredidos ao sermos alvo de suas ações criminosas; a nos escandalizar quando atuam contra os nossos valores individuais ou coletivos, mesmo quando o alvo não é quem amamos, mas poderia ser...
  • (3) dentre outros...

Tudo isso nos incomoda e até revolta, fazendo com que sintamos algo não tão bom em relação às ações delas (e não contra elas). Se sentirmos contra elas, foi porque personificamos nelas o que não gostamos em suas ações.

Por outro lado, porém, se pensamos em (i) quem amamos e que nos magoam, ou (ii) amamos e nos fazem bem...

... é fácil entendermos, no exemplo, que (i) esse peso deva ser jogado fora através do perdão, da compreensão de que as pessoas só poderão dar aquilo que têm e que somos nós a determinar como iremos interpretar cada situação por nós vivenciada, não é?

Mas, no segundo caso (ii), as que amamos e nos fazem bem, qual peso que carregaríamos? O da exacerbação deste mesmo amor. Mesmo que elas nada tenham feito “contra” nós, se não equilibramos o nosso amor, começaremos a criar sentimentos que nos escravizarão e nos tornarão insatisfeitos com aquela relação. Então, mesmo amando e sendo amados, poderemos carregar batatas podres e viver na insatisfação sem perceber, através do ciúmes, da possessividade, da superproteção...

Carregaremos um lixo que está transfigurado como algo valioso, que não poderemos viver sem ele. É não analisarmos com cuidado aquilo que já nos incomoda, mas, por ser importante, nem analisamos o que estamos sentindo porque não queremos nos livrar dele.

Está na hora de, sabendo o que não nos faz bem, termos coragem para enfrentar tais sentimentos e, se não forem mesmo saudáveis, usarmos dos seus respectivos antídotos para superá-los.

São instrumentos adequados para nos colocarmos aptos a descartar aquilo (i e ii) que já não nos serve mais:

  • (a) o perdão e
  • (b) o autoperdão;
  • (c) o autoamor;
  • (d) a autopreservação; e,
  • (e) o autoconhecimento.

Se antes, aquele “lixo” nos foi útil, agora, utilizando-nos destas ferramentas, perceberemos que ele deixou de ser.

Assim, deixaremos de produzi-lo (lixo) e se o fizermos em um momento de invigilância, teremos condições de o descartarmos em um lugar apropriado sem produzirmos grandes mazelas ao nosso ser.


___________________
[1] Usarei neste artigo as expressões “jogar fora”, “descartar”, em razão da história que nele foi incluída, mas vamos sempre nos lembrar que não há onde depositarmos nossos sentimentos equivocados, e sim transformá-los, reciclá-los em sentimentos que nos consolam e impulsionam.

Postar um comentário

Deixa aqui o seu comentário que responderei assim que puder.
Abraços fraternos.

My Instagram

Copyright © Adriana Machado - Escritora. Made with by OddThemes