Desabafo de uma motorista cristã



Mais um dia em que vejo um motociclista estendido no chão de nossas ruas. Mais uma vez, vejo rostos desesperados, não só das pessoas que estão ao redor, mas também do motorista que atingiu aquele ser humano estendido à sua frente.
Fiquei pensando, enquanto seguia no meu caminho, aonde vamos parar?
Me desculpem àqueles que pensam diferente de mim, mas, como eu disse, é um desabafo de uma motorista cristã, porque eu não aguento mais ver pais, chefes de família, filhos, irmãos, parentes e amigos em geral, serem mortos ou ficarem paraplégicos, às vezes em estado vegetativo por toda a sua vida, por ausência total de maturidade nossa, ou de um comprometimento maior das autoridades em velar por nossas vidas.
Estão surpresos? Mas, é verdade! As leis existem com uma finalidade e as do trânsito não são diferentes. Elas servem para nos proteger, porque se cada um agisse como bem quisesse, haveria o caos e a anarquia.
As leis de trânsito existem para que saibamos o que esperar do outro motorista; para que todos tenham uma forma única de agir, nos dando a habilidade de dirigirmos aquelas máquinas “enormes” que, se não forem bem utilizadas, poderão matar.
Eu não sei como é aí na sua cidade, mas aqui na minha, não vemos o guarda aplicar as sanções devidas quando um motociclista descumpre as normas de trânsito. E, infelizmente, todos sabemos que, em nosso país, ainda necessitamos dessas sanções para sermos compelidos a não agir fora da lei. Entende-se, portanto, que, se elas não são aplicadas, acontece o que vemos todos os dias, motociclistas chegando mortos em hospitais públicos, ou feridos gravemente, ou sem esperança de viverem normalmente a partir daquele acidente. Isso é horrível! Isso se tornou tão corriqueiro que os jornais nem publicam mais nada sobre isso.
Fazendo uma análise, talvez, irônica, eu estou tendenciosa a acreditar que, nas provas de habilitação do Detran, o código nacional de trânsito cobrado de um motociclista é diferente dos demais motoristas, porque eles estão descumprindo a maioria das regras nele existentes. A normatização é muito clara sobre qualquer veículo não ultrapassar pela direita da direção; não transitar em alta velocidade seja na via seja no corredor entre os veículos; atendermos a seta acesa do veículo que está à nossa frente e frearmos para lhe dar passagem; dentre outras tantas regras de conduta. Na minha cidade, nada disso é cumprido, tampouco coibido pelos inúmeros guardas de trânsito que estão em nossas ruas!
Pode parecer, para cada um de vocês, que eu estou contrária aos motociclistas, mas não é isso. A minha enorme preocupação é com eles que acreditam que podem fazer o que estão fazendo, arriscando as suas vidas todos os dias nas vias públicas de nossas cidades. Infelizmente, aquele motociclista que vi estendido hoje, talvez não volte mais para a sua família e, o motorista envolvido no acidente também não tenha mais uma vida normal a partir de agora.
Há alguns anos, eu participei de um curso e ouvi a reclamação de um motorista de transporte escolar questionando porque os guardas não multavam os motociclistas que estavam descumprindo tão flagrantemente as normas de trânsito. Sabe o que o expositor respondeu? Que se eles fizessem isso, retirariam das motos a sua função de alta mobilidade! Todos nós ficamos muito espantados com aquela resposta e, apesar de muitos argumentos contrários, trazidos pelos que participavam daquele curso, nada mudou sobre isso. Desde aquele dia, eu fico me perguntando o que leva nossas autoridades a aceitarem essa ideia dos motociclistas acharem que, só porque a moto é rápida e estreita, pode ser usada para colocar em risco a sua vida e a dos demais motoristas e pedestres! Se fosse assim, eu teria que aceitar a ideia de que a arma de fogo deve ser sempre usada para ferir ou matar alguém, sem questionar que ela pode ser somente um instrumento de coação à sua utilização pelo outro!
Pensem comigo: se um motorista de um automóvel não vir a moto no seu lado cego (direita ou próximo demais no corredor), e lhe der um esbarrão (um simples esbarrão), o motociclista será arremessado a muitos metros de onde está, sendo passível de ser morto com a queda. Vale a pena zelar pela mobilidade em detrimento da vida do condutor? Será que não se pode usar desse veículo atendendo às regras de trânsito que existem para a sua própria proteção? Como eu disse antes, não podemos esquecer de que um acidente envolvendo um motociclista, normalmente, acarreta a sua morte e/ou sua debilidade e, quem sabe, um processo crime contra o motorista envolvido, trazendo enormes transtornos também à sua vida.
Escrevo essas linhas ainda com o meu coração oprimido, porque não estamos falando de uma “guerra” entre carros e motos, mas de vidas humanas que conduzem tais veículos e que, por ausência de uma atitude mais enérgica de nossas autoridades, muitos ainda pagarão por essa negligência.
Hoje, a cada dia que saio de carro, peço por mim e por ele, o outro “motorista”.

Só me resta rezar!

4 comentários :

  1. Concordo plenamente! Fico estarrecida com a falta de responsabilidade dos condutores de motos, achando que são livres para fazerem o que querem no asfalto e também não tiro a responsabilidade dos condutores de carros de acharem que tem maior direito de espaço não permitindo as motos de ultrapassarem. Adorei uma ótima reflexão de responsabilidade é respeito.

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    1. É verdade, Rosilene! Precisamos sempre nos lembrar que somos seres humanos lidando com outros seres humanos numa responsabilidade mútua nesta grande teia da vida.
      Obrigada!

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  2. As leis existem para organizar e preservar os indivíduos de uma sociedade. Também limita a ação do indivíduo para fazer o seu papel sem invadir o espaço do outro, em seu papel frente a vida.
    O que muitos dos indivíduos acima citados, ainda não perceberam é que usar do seu livre arbítrio e extrapolar os limites da lei, é também ter que arcar com as consequências dos atos realizados.

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  3. Isso mesmo, Argeu! E, agindo certo no trânsito, estaremos automaticamente treinando para agir certo na vida como um todo. Abraços.

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